13.12.09

Jenny Gump, por Kerouac

Conto para a disciplina Oficina de Interpretação: baseada no estilo de Jack Kerouac, Jenny narra parte da história do filme Forrest Gump (1994) - do qual é personagem, pros desavisados.

1

A discoteca estava lotada tocando um dos hits daquele momento do qual nunca vou me lembrar. A luz vermelha, roxa, rosa, lilás, púrpura. Todos conversando animados, ou assim pareciam estar: gritando que só, buscando ser ouvidos mais do que a própria e a próxima música, todos bebendo; e todos conversando; e todos dançando; e todos flertando; e todos já se paquerando; e todos traçando planos. Minha mesa também estava repleta, seis pessoas numa daquelas mesas que tudo o que você tem é um globo de luz azul para iluminar algo branco é algo fantástico ou pelo menos era o que eu pensava naquela hora enquanto gargalhava tanto com aqueles completos desconhecidos que às vezes me pareciam assim tão comuns pelos seus sorrisos mil. Todos tão educados, me deixando cheirar cocaína ali mesmo, enquanto tagarelavam sobre algum assunto que a música abafava naquele lugar abafado.

Cocaína é uma coisa interessante e naquela hora eu pensei em fazer algo inovador, algo que me permitisse, finalmente, esquecer de todos os meus problemas e me concentrar apenas nas minhas soluções: a rua. Não a rua em si, mas o fato de cair na rua do alto de onde quer que eu estivesse, quão alto eu seria capaz de chegar ainda hoje? Mais tarde no apartamento com aquele mexicano estranho, toda a ideia parecia simplesmente genial quando o efeito todo resolveu passar e me deixar sozinha. Que situação horrenda. Meus olhos pareciam... Não sei o que pareciam, nunca consegui pensar no que pareciam, mas era alguma coisa nojenta, nojenta e preta. Era a hora. Havia uma varanda e a hora era agora, perfeito. Até uma cadeirinha pra eu subir e poder pular mais à vontade. Quantos carros lá embaixo, não deu pra contar. Quando eu começava, eles passavam, eu só via borrões, ficava com medo e tentava me concentrar no que tinha de fazer, mas ah, meu Deus, como era longe o lugar pra onde eu ia, e talvez fosse ainda mais longe que aquele asfalto maldito com mais uns carros passando em alta velocidade por aquele cruzamento perigoso. Quantos andares daria dali? Era mais alto que o prédio da frente. O prédio da frente tinha uns trinta, uns quarenta, tinha uns oitenta fácil, fácil. Era longe e ia doer, por Deus. Maldito salto alto que dói em meu pé, mas lá doeria mais. E os carros continuam, que agonia, mais dois passando, brilhando quase que nem a minha blusa... Deus, quase escorreguei. Não quero morrer. Não agora. Não, não, não, não, tudo errado, tudo. Não tá na hora, olha a lua. Não, não, vou vomitar. Não, não, não, não.

2

E então, eu estava lá. A vida é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar. Mas quis e realmente encontrei Forrest naquela linda manhã enquanto ele cortava a grama já tão verdinha da casa do Gump. Tudo era branco e verde naquele dia, tudo estava lindo e talvez ele tenha se chocado, porque desligou o carrinho vermelho e veio me ver com um olhar intrigante e luvas nas mãos, apressou o passo e só foi interceptado num – Oi, Forrest – enquanto Forrest não sabia o que dizer, mas bastou um – Oi, Jenny – para fechar toda a situação. Eu estava feliz como não havia estado há muitos anos e corri para abraçá-lo. E estava cansada, Deus como estava cansada. Dormi durante um dia quase inteiro, dormi e dormi como se não tivesse dormido por anos e anos. Talvez por não ter para onde ir, mas era bom estar ali. Todo dia passeávamos pela região e Forrest falava sem parar sobre pingue-pongue; e sobre barcos de camarões; e sobre sua mãe que viajava para o céu; e eu preferia ficar calada e só ouvi-lo. A não ser quando passamos em frente a minha casa, e eu queria atirar lá minha alma, mas só tinha dois sapatos e algumas pedras e isso só seria o suficiente para quebrar a janela, devastante. Eu queria destruir tudo aquilo, mas vi que às vezes a vida não te dá pedras suficientes. Forrest estava do meu lado. Mas não deveria estar, eu queria estar sozinha e destruir toda aquela casa, eu tinha de fazer isso, mas levantar era difícil e eu só queria voltar para casa. A minha casa, não esta casa.

Não acho que Forrest se importava do motivo, mas eu estava de volta. Eu também não entendia o motivo, mas era tudo muito novo, apesar de antigo. Forrest devia pensar que era tudo como nos velhos tempos, que éramos como pão e manteiga outra vez, e todo dia ele colhia novas flores, e bonitas, para colocar no meu quarto. Ah, Forrest, pra ele eu dei um Nike, desses especiais para correr. E ensinei Forrest a dançar na medida do possível, e ali talvez até fôssemos como uma família, eu e Forrest, a época mais feliz da minha vida.

O 4 de julho foi algo estranho. Éramos como um família, eu e Forrest, e então ele me pediu em casamento enquanto eu ia para a cama. Ele parado perto da porta da sala, com o tênis ainda novo em folha e aquela cara que só Forrest era capaz de fazer. Ele daria um bom marido, é claro. – Mas você não quer se casar comigo. – Eu poderia garantir que era ele quem não queria se casar comigo. – Por que você não me ama, Jenny? Eu não sou um homem inteligente, mas eu sei o que é o amor. – Eu sabia daquilo tudo, mas o amor não era mais uma questão de amar e ser feliz. Eu amava, era feliz, tinha percebido. Mas amar não bastava em alguns casos e tudo o que eu queria era sumir daquelas escadas e não ver Forrest se humilhar por alguém que não lhe valia a pena, não importasse o que ele iria me dizer, não importasse o que eu iria dizer a ele. Forrest foi para a porta e eu fui para as escadas, mas como a vida podia ser tão complicada se há algumas horas eu era simplesmente tão feliz? Acabei aquela noite chuvosa no quarto de Forrest: – Forrest, eu te amo, sim. – Nos beijamos ternamente e eu mesma tirei minha bata. Forrest não sabia bem o que fazer, mas, Deus, também eu não sabia o que fazer e acho que queria fazê-lo, mas no fundo... No fundo valeu a pena, pude ver vários anos depois.

Mas no raso, de manhã bem cedo um táxi me esperava, numa manhã tão bela quanto aquela do reencontro. O moço de bigode me lia pelas passadas: – Para onde você está fugindo? – Mas eu não estava fugindo, não do modo como ele pensaria, porque eu fugia um pouco de Forrest e eu fugia de mim.

3

O tênis foi bem útil para Forrest porque ele tinha muito no que pensar, penso eu. Descobri quando vi na tevê que um jardineiro de Greenbow, Alabama, corria há mais de dois anos atravessando os Estados Unidos sem dar motivo algum, e cruzava pela quarta vez o rio Mississipi, e ah, Forrest, eu não poderia acreditar. Só corra, Forrest, corra.

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